Francisco Espinhara





 

Francisco Espinhara (Arcoverde, 1960 — Recife, 13 de fevereiro de 2007) foi um poeta brasileiro.Aos seis anos de idade, Chico Espinhara saiu de sua cidade natal para morar no Recife. Foi um dos coordenadores do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco na década de 1980, e participou da vida literária local ativamente. Foi editor do jornal alternativo de poesia Lítero-Pessimista. Produziu o CD Vários Poemas Vários - 25 poetas contemporâneos (1999).  Publicou:Vida Transparente (1981) Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980-1988 - histórico e coletânea (2000) ;Sangue Ruim (2005); Bacantes (livro digital); Claros Desígnios, em parceria com o poeta Erickson Luna (2006). Publicou os livretos: A batalha pelo poema, Teje preso, seu rapaz e Dose dupla. Participou das antologias Poesia do Recife (1996) e Marginal Recife I (2002), da Fundação de Cultura Cidade do Recife. 



Fonte:Wikipédia 






Fantoches 
Francisco Espinhara




Os fantoches da rua Sete 
Seguem cegos na procissão.

A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.

Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.

Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre o chão.

Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.






O circo
Francisco Espinhara
 



Este aqui é meu esquema
Me fazer de mico
Se não é no poema
Decerto é no circo.
Norma, esta pequena
E nela me arrisco:
Se faço o poema
Faço também o circo.
Não sei se vá ou fico
O amor me condena
Mas é no poema
Onde armo meu circo.




Black sabbath
Francisco Espinhara
 



Quero as manhãs incendiadas.
O resto do dia diabo aceso
As cabeças das mães degoladas
O monge da paz num poço preso.
Que despenquem das varandas
Flores de bálsamo perfumadas.
Venham ungidas de lavanda
As faces das crianças maceradas.
Que o golpe destro do punhal
Esfrie o sabor da língua.
As vísceras deixemos ao chacal
Ou morram mesmo à míngua.
Que o ódio atropele o amor
Não se dê à paz morada.
O mundo seja um barril de dor
A rolar incessantemente pela escada.




Epitáfio  N° 529
Francisco Espinhara

Não vou a enterros.
Que o morto
Se guarde no que é seu.
Se incorro em erro,
Perdoem-me: irei ao meu.



Desumano
Francisco Espinhara
 


Dá-me Deus um deus melhor
Não este deus azul
Este deus que as mãos cálidas clamam
Este deus senecto, rendez-vous.
Dá-me Deus um deus diferente, menor
Um deus com a cara suja de poeira
E que deite e durma e sonhe
E que se sente à mesa e coma
Os frutos que da terra hão de vir
Cantarole, lírico, uma velha canção
Depois desate a sorrir.
Dá-me Deus um deus humano
Como deus outro nenhum
Sem quaisquer obrigações divinas
E que ante a realidade das ruínas
Não se preste a milagres
Nem se preste a jejum
Dá-me Deus um deus comum




Perispiritual
Francisco Espinhara



A gente muda
Se transmuda ao além.
Pega de um bonde
Sem lá nem onde
Sem proust nem pound
Sem nenhum vintém.
A gente muda
Dizendo-muito bem
Nenhuma bagagem
Nenhuma linguagem
Na treva do trem.


Deletar-me
Francisco Espinhara
 


Não sei se vôo a marte
Ou se vou à morte.




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